Brownies saudáveis de feijão preto e chocolate

Este sábado foi o casamento da minha querida Sónia, uma amiga que conheci durante o chamado “internato do ano comum”. Também foi o casamento do Tiago, mas, sociedade machista!: os casamentos são sempre muito mais das mulheres, não é? Tsk, tsk. De qualquer maneira, claro que eu e o Sandro fomos, e nos divertimos milhões. Aqui vão alguns registos do período sensato pré-abuso-do-bar-aberto:

Fotografias de telemóvel têm sempre a melhor qualidade.

Por mais divertida que a festa tenha sido — e foi mesmo: todas as doze horas seguidas dela! —, e boa para reatar contactos entretanto interrompidos pelo ritmo da vida, tenho de confessar que senti saudades da minha própria comida. A verdade é que, em termos gastronómicos, a quinta em causa não é um lugar onde eu própria gostasse de casar; à excepção do buffet de sobremesas, que era bastante decente mas que já quase não soube a nada, porque álcool, álcool, álcool, os sabores do dia e da noite não estiveram, de todo, à altura da awesomeness dos meus amigos, e por várias vezes me fizeram sonhar com as batatas-doces que tinha em casa. Por causa disso, quando, no dia seguinte, acordámos com uma ressaca surpreendentemente ligeira (percebem porque insisto na qualidade do álcool?), decidi que iria, definitivamente, experimentar esta receita alegadamente famosíssima do blog Chocolate Covered Katie: cujo livro, já agora, também está encomendado. E que fantástica, fantástica decisão essa foi. Obrigada, Luísa, por seres tão genial.

Brownies, na minha opinião, são um tipo divino de bolo. A textura suculenta e os sabores ricos que os caracterizam fazem as delícias de qualquer guloso, e confesso que lhes sou muito parcial. E estes brownies, meus amigos, são, definitivamente, uma das melhores receitas doces que já fiz. Na vida. (O Sandro concorda.) Tudo acerca deles é inacreditável: os ingredientes que levam (ou que não levam: afinal de contas, são zero açúcares refinados, zero gorduras “más”, zero farinha!), a facilidade de os fazer, o tempo que se aguentam absurdamente deliciosos. Bom, esta última parte é um pouco inventada, dado que eu e o Sandro terminámos o tabuleiro em menos de 24 horas. É verdade, no entanto, que hoje comi dois depois de umas horas no frigorífico, e, simplesmente, não consigo decidir se são melhores quentes ou frios. Com estes brownies, todas as opções são difíceis.

A opção, por exemplo, de parar de os fazer. É que, apesar da textura e sabor pecaminosos, estas coisas têm apenas 132 calorias por unidade. Cheira-me (no pun intended) que esta vai ser uma das receitas mais feitas nesta casa. Que poderei, até, ser processada pelo forno por abuso. Não sei. Desconfio. É só um palpite.

FICHA TÉCNICA

  • Tempo: 20 min (preparação) + 18 min (forno).
  • Dificuldade: Baixa.
  • Porções: 12 brownies.
  • Calorias (total): 1590 kcal.
  • Calorias (1 brownie): 132 kcal.

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Queijada de iogurte e mel

Pois é, meus amigos: ao contrário do que se possa pensar, o meu silêncio recente não se deve (ainda) à minha total incapacidade de manter compromissos, mas sim, de certa forma, ao oposto: esta última semana foi passada na belíssima cidade de Amesterdão, viagem com que presenteei o meu pai no seu aniversário deste ano — e que, sendo ele Peixes, já estava, como devem calcular, planeada há uns bons meses. Foram poucos dias, mas bons, e passados na melhor companhia (embora o património genético me torne suspeita nesta opinião).

Stroopwafel artesanal do Nieuwmarkt, ou O Motivo pelo Qual Teria Sempre Valido a Pena Ir a Amesterdão, ou, Francamente Falando, Fosse Aonde Fosse.

E, assim, já morta de saudades, dedico esta receita de regresso de férias precisamente a esse senhor que tanto amo e admiro, e que, ao final de duas semanas de convivência, me custa tanto, tanto deixar ir para longe de novo. Mas adiante, que a vida tem destas coisas, e não é tarde nem é cedo para evitar uma crise de choro!: esta espécie de queijada aldrabada, apenas por mim assim intitulada (a receita de onde a adaptei chama-lhe “bolo”), é um dos doces preferidos do meu Pai (“P” maiúsculo mais do que propositado!), que já tem fama de se babar por estas texturas — mas também fez as delícias dos meus colegas menos parciais quando, há umas semanas, a levei para a comemoração de um aniversário no trabalho. Além disso, e não menos importante: é relativamente pouco calórica, e ridiculamente fácil de fazer! A sério: os 5-10 minutos não são um exagero.

FICHA TÉCNICA

  • Tempo: 5-10 min (preparação) + 30 min (forno).
  • Dificuldade: Muito baixa.
  • Porções: 8 doses.
  • Calorias (total): 680 kcal (sem mel).
  • Calorias (1 dose): 85 kcal (sem mel).

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Mais uma voltinha, mais uma viagem

Este blog nasce de um auto-admitido excesso criativo e do poder transformador da solidão. Há cerca de duas semanas, o meu colega de casa — que, de entre nós, tem sido o dono e senhor único dessa área sagrada que é a culinária: com mérito, devo dizê-lo — ausentou-se para férias. A ideia de me alimentar durante umas semanas a sopa e iogurtes naturais com aveia não foi nada que não me tivesse passado pela cabeça (nem a ele, penso eu), mas, experiência após experiência, e cada vez mais a sério, acabei por redescobrir o meu amor pela cozinha.

A verdade é que só comecei a cozinhar para mim própria numa fase tardia da vida, com cerca de 22 anos, e, já aí, apenas graças ao incentivo do meu namorado da altura, que vivia a 300 km de mim e temia que, no enfardar constante de pizzas e cannelloni do Pingo Doce, eu não tivesse grandes probabilidades de vir a envelhecer com ele. Ser filha única e ter tido uma ama exclusiva (e, mais tarde e durante quatro anos, uma tia-senhoria extremamente zelosa) tem dessas coisas: a meio do seu longuíssimo curso, a Luísa ainda não sabia estrelar um ovo (por outro lado, e mais ou menos? em minha defesa, isso continua a ser algo que não faço muito bem). Com isso dito, durante os restantes anos da faculdade, não aprendi a fazer muito mais do que algumas variações de arroz, massa e batatas, que, não sendo eu particularmente adepta de carne ou peixe, me foram sempre enchendo suficientemente as medidas.

Em 2014, fiz o chamado “internato do ano comum”, o (por enquanto, ainda) primeiro ano de exercício profissional de um médico em Portugal, na muito simpática cidade de Santarém — um facto que, hoje e em retrospectiva, me surge como uma ilha aleatoriamente isolada no fluxo de memória da minha vida, passada durante tanto tempo no Porto e agora estabilizada na área de Lisboa. Porque achei que era uma experiência pela qual devia passar, desta vez optei por alugar um T0 e viver sozinha durante doze meses: e foi numa branquíssima casa de bonecas em frente à Igreja de Santa Clara que, num ou outro ímpeto experimental, fui tentando novas coisas, como risottos, arrozes e massas mais complexos, panquecas, etc. Os resultados, sempre mais positivos do que as expectativas — afinal, foram mais de vinte anos a trabalhar numa auto-imagem sólida de alguém que não sabe cozinhar —, foram catalisando a transformação da obrigação em gosto, mas a preguiça e as circunstâncias de vida acabaram por vencer, e, perto do final do ano, os jantares, única refeição quente que fazia em casa, já tinham revertido a cereais, sopas compradas, fatias de pão com compota e todas essas belas coisas rápidas do nosso mundo. Entretanto, a decisão de vir trabalhar para a linha de Cascais já se vinha a formar, e consigo, por razões económicas, a de viver em Oeiras com um amigo que conhecia dos meus tempos de administração no MangaPT: e que, por sinal, cozinhava muito melhor, e tinha muito mais paciência para o fazer, do que eu algum dia poderia ambicionar.

Assim, os meses desenrolaram-se até ao número oito sem que eu tivesse tocado muito em qualquer utensílio culinário, a não ser para a preparação esporádica de um bolo ou sobremesa (os doces sempre foram o meu forte — nesse campo, confesso, nunca me considerei nem fui má: desde pequenina!), e nunca para novas experiências. A alteração total desse facto nas duas últimas semanas, e o consequente avolumar progressivo da minha lista pessoal de receitas aprovadas, bem como a frequência de alguns sites e blogs culinários de enorme inspiração, fizeram crescer em mim a vontade de partilhar algumas palavras, imagens e sabores com o resto do mundo: sempre sem compromisso ou grandes expectativas, pois só nessas condições posso, neste momento da minha vida, abraçar um novo projecto.

O nome deste blog, “Polifagia Nervosa”, é uma brincadeira, espero que não de mau gosto, com o da doença “anorexia nervosa”, o famoso distúrbio alimentar no qual, pela associação entre a distorção da auto-imagem corporal e o desejo obsessivo de emagrecer, se verifica uma abstinência neurótica da ingestão de comida. “Anorexia”, por si só, significa simplesmente diminuição do apetite, enquanto “polifagia” é algo como o seu oposto. (Sim, suponho que, uma vez médico, médico sempre. Que seca.)

E a introdução já vai longa, como todas as minhas. Tentarei não abandonar esta ideia ao final de alguns dias, embora o mais provável seja isto tornar-se no saco onde venho despejar a minha ansiedade naqueles momentos em que a vida parece demasiado séria (o que, a nível de assiduidade, pode ter traduções extremamente variáveis). Entretanto, podem encontrar outras vertentes criativas de mim no meu muito mais antigo e estabelecido blog literário, nightbird.

Feliz continuação, e parabéns a quem leu até aqui!