Mais uma voltinha, mais uma viagem

Este blog nasce de um auto-admitido excesso criativo e do poder transformador da solidão. Há cerca de duas semanas, o meu colega de casa — que, de entre nós, tem sido o dono e senhor único dessa área sagrada que é a culinária: com mérito, devo dizê-lo — ausentou-se para férias. A ideia de me alimentar durante umas semanas a sopa e iogurtes naturais com aveia não foi nada que não me tivesse passado pela cabeça (nem a ele, penso eu), mas, experiência após experiência, e cada vez mais a sério, acabei por redescobrir o meu amor pela cozinha.

A verdade é que só comecei a cozinhar para mim própria numa fase tardia da vida, com cerca de 22 anos, e, já aí, apenas graças ao incentivo do meu namorado da altura, que vivia a 300 km de mim e temia que, no enfardar constante de pizzas e cannelloni do Pingo Doce, eu não tivesse grandes probabilidades de vir a envelhecer com ele. Ser filha única e ter tido uma ama exclusiva (e, mais tarde e durante quatro anos, uma tia-senhoria extremamente zelosa) tem dessas coisas: a meio do seu longuíssimo curso, a Luísa ainda não sabia estrelar um ovo (por outro lado, e mais ou menos? em minha defesa, isso continua a ser algo que não faço muito bem). Com isso dito, durante os restantes anos da faculdade, não aprendi a fazer muito mais do que algumas variações de arroz, massa e batatas, que, não sendo eu particularmente adepta de carne ou peixe, me foram sempre enchendo suficientemente as medidas.

Em 2014, fiz o chamado “internato do ano comum”, o (por enquanto, ainda) primeiro ano de exercício profissional de um médico em Portugal, na muito simpática cidade de Santarém — um facto que, hoje e em retrospectiva, me surge como uma ilha aleatoriamente isolada no fluxo de memória da minha vida, passada durante tanto tempo no Porto e agora estabilizada na área de Lisboa. Porque achei que era uma experiência pela qual devia passar, desta vez optei por alugar um T0 e viver sozinha durante doze meses: e foi numa branquíssima casa de bonecas em frente à Igreja de Santa Clara que, num ou outro ímpeto experimental, fui tentando novas coisas, como risottos, arrozes e massas mais complexos, panquecas, etc. Os resultados, sempre mais positivos do que as expectativas — afinal, foram mais de vinte anos a trabalhar numa auto-imagem sólida de alguém que não sabe cozinhar —, foram catalisando a transformação da obrigação em gosto, mas a preguiça e as circunstâncias de vida acabaram por vencer, e, perto do final do ano, os jantares, única refeição quente que fazia em casa, já tinham revertido a cereais, sopas compradas, fatias de pão com compota e todas essas belas coisas rápidas do nosso mundo. Entretanto, a decisão de vir trabalhar para a linha de Cascais já se vinha a formar, e consigo, por razões económicas, a de viver em Oeiras com um amigo que conhecia dos meus tempos de administração no MangaPT: e que, por sinal, cozinhava muito melhor, e tinha muito mais paciência para o fazer, do que eu algum dia poderia ambicionar.

Assim, os meses desenrolaram-se até ao número oito sem que eu tivesse tocado muito em qualquer utensílio culinário, a não ser para a preparação esporádica de um bolo ou sobremesa (os doces sempre foram o meu forte — nesse campo, confesso, nunca me considerei nem fui má: desde pequenina!), e nunca para novas experiências. A alteração total desse facto nas duas últimas semanas, e o consequente avolumar progressivo da minha lista pessoal de receitas aprovadas, bem como a frequência de alguns sites e blogs culinários de enorme inspiração, fizeram crescer em mim a vontade de partilhar algumas palavras, imagens e sabores com o resto do mundo: sempre sem compromisso ou grandes expectativas, pois só nessas condições posso, neste momento da minha vida, abraçar um novo projecto.

O nome deste blog, “Polifagia Nervosa”, é uma brincadeira, espero que não de mau gosto, com o da doença “anorexia nervosa”, o famoso distúrbio alimentar no qual, pela associação entre a distorção da auto-imagem corporal e o desejo obsessivo de emagrecer, se verifica uma abstinência neurótica da ingestão de comida. “Anorexia”, por si só, significa simplesmente diminuição do apetite, enquanto “polifagia” é algo como o seu oposto. (Sim, suponho que, uma vez médico, médico sempre. Que seca.)

E a introdução já vai longa, como todas as minhas. Tentarei não abandonar esta ideia ao final de alguns dias, embora o mais provável seja isto tornar-se no saco onde venho despejar a minha ansiedade naqueles momentos em que a vida parece demasiado séria (o que, a nível de assiduidade, pode ter traduções extremamente variáveis). Entretanto, podem encontrar outras vertentes criativas de mim no meu muito mais antigo e estabelecido blog literário, nightbird.

Feliz continuação, e parabéns a quem leu até aqui!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s